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SabedorIA:
Como a inteligência artificial está transformando a educação e por que o futuro da aprendizagem ainda depende das pessoas
A Inteligência Artificial já faz parte da rotina de milhões de estudantes e professores, trazendo novas possibilidades para o ensino, mas também desafios inéditos. Entre promessas de aprendizagem personalizada e preocupações com autonomia, ética e pensamento crítico, a tecnologia redefine o papel da escola. Nesta reportagem, especialistas, pesquisas e experiências mostram como a IA está mudando a educação e quais caminhos podem garantir uma integração responsável entre humanos e máquinas.
Na história da humanidade, poucas revoluções tecnológicas avançaram tão rápido e em tão pouco tempo quanto a evolução da Inteligência Artificial generativa. Foi em menos de uma década que passaram de meros protótipos à sistemas completos capazes de escrever todo tipo de texto, compor músicas e gerar mídias extremamente realistas.
A IA não surgiu do nada, ela foi resultado de anos de pesquisa e aperfeiçoamento. Aos poucos, os estudos e pesquisas em IA generativa avançaram por parte das empresas de tecnologia, que foram criando modelos cada vez mais avançados, até o boom em 2022. Em cerca de um ano, a IA generativa deixou de ser um mistério para se tornar realidade intrínseca no mundo todo. Três eventos foram responsáveis por isso: o lançamento do Stable Diffusion, utilizado principalmente para gerar imagens detalhadas através de descrições textuais; o surgimento do Midjourney, também gerador de imagens; e, principalmente, o lançamento do ChatGPT.

Uma visão geral dos logotipos das principais plataformas e ferramentas de Inteligência Artificial generativa (Fonte: autoral)
A OpenAI lançou o ChatGPT em 30 de novembro de 2022, como uma demonstração pública gratuita do GPT-3.5. Foi então que o sistema alcançou a marca histórica de 100 milhões de usuários ativos mensais em janeiro de 2023, apenas dois meses após seu lançamento. Em comparação, por exemplo, às principais redes sociais da atualidade, o Instagram levou cerca de dois anos e o TikTok cerca de 9 meses para alcançar o mesmo número. (EXAME, 2023)
Alguns anos após, a evolução da IA tomou proporções maiores, os modelos deixaram de apenas criar conteúdos básicos e passaram a realizar raciocínios complexos, fazer planejamentos e executar tarefas inteiramente sozinhos. Em 2025, pela primeira vez, um modelo experimental da OpenAI e do Gemini Deep Think foram capazes de conquistar pontuação necessária para a medalha de ouro da Olimpíada Internacional de Matemática, um feito antes inimaginável. Ainda assim, o desempenho humano foi superior ao das IAs generativas na competição (G1, 2025).
Chegamos então ao questionamento: considerando o avanço extremo das IAs generativas, chegando até ao desempenho avançado em questões educacionais, como a Inteligência Artificial pode ser integrada ao ambiente escolar de forma a potencializar o aprendizado sem comprometer a autonomia, a criatividade e o pensamento crítico dos estudantes? É o que procuramos responder ao longo desta reportagem.
A seguir, foi realizada uma linha do tempo para exemplificar o avanço da IA ao longo dos anos e os principais eventos que marcaram essa evolução.
A OpenAI lançou o ChatGPT em 30 de novembro de 2022, como uma demonstração pública gratuita do GPT-3.5. Foi então que o sistema alcançou a marca histórica de 100 milhões de usuários ativos mensais em janeiro de 2023, apenas dois meses após seu lançamento. Em comparação, por exemplo, às principais redes sociais da atualidade, o Instagram levou cerca de dois anos e o TikTok cerca de 9 meses para alcançar o mesmo número. (EXAME, 2023)
Alguns anos após, a evolução da IA tomou proporções maiores, os modelos deixaram de apenas criar conteúdos básicos e passaram a realizar raciocínios complexos, fazer planejamentos e executar tarefas inteiramente sozinhos. Em 2025, pela primeira vez, um modelo experimental da OpenAI e do Gemini Deep Think foram capazes de conquistar pontuação necessária para a medalha de ouro da Olimpíada Internacional de Matemática, um feito antes inimaginável. Ainda assim, o desempenho humano foi superior ao das IAs generativas na competição (G1, 2025).
Chegamos então ao questionamento: considerando o avanço extremo das IAs generativas, chegando até ao desempenho avançado em questões educacionais, como a Inteligência Artificial pode ser integrada ao ambiente escolar de forma a potencializar o aprendizado sem comprometer a autonomia, a criatividade e o pensamento crítico dos estudantes? É o que procuramos responder ao longo desta reportagem.
A seguir, foi realizada uma linha do tempo para exemplificar o avanço da IA ao longo dos anos e os principais eventos que marcaram essa evolução.
A inteligência artificial já chegou às salas de aula
A inteligência artificial já chegou às salas de aula
A inteligência artificial já chegou às salas de aula
A inteligência artificial já chegou às salas de aula
Diversos modelos de IA, como ChatGPT, Gemini e Claude passaram a ser utilizados amplamente em diversas áreas da sociedade, tanto para a realização de tarefas pequenas e cotidianas, quanto em escritórios comerciais, e claro, nas escolas. Alunos e professores descobrem aos poucos as potencialidades da ferramenta no ambiente escolar, e ampliam cada vez mais o seu uso.
É notório que a IA oferece diversos benefícios para o ambiente educacional. Ela é capaz de ser, ao mesmo tempo, personalizada e facilitadora. O aluno consegue fazer a ferramenta se adaptar ao seu estilo de estudo e de aprendizagem, tornando esse processo muito mais tranquilo do que antes. Além disso, sistemas como o NotebookLM - desenvolvido pelo Google Labs e ligado ao Gemini - são capazes de absorver grandes quantidades de conteúdo, as chamadas fontes, e a partir delas, criar diversos facilitadores para o estudo e a compreensão desse conteúdo que foi fornecido. Para os professores, também há uma maior facilidade em relação à algumas tarefas. Joyce Queiroz, Doutoranda em Educação pela UFU, Mestre em Educação pela UFMG, com licenciaturas em Geografia e Pedagogia, relatou algumas dessas facilidades. “A inteligência artificial, no caso, a inteligência artificial que é essa que cria, que gera os textos, eu consigo explorar vários benefícios. E é justamente essa questão de otimizar o tempo, de, como professora, realizar avaliações, realizar resumos, buscar artigos individuais, trabalhos individuais.”
Porém, a facilidade encontrada nesses ambientes virtuais esbarra nos desafios enfrentados presencialmente nas escolas. As inovações tecnológicas chegaram no setor educacional servindo, principalmente, como ferramentas para facilitar o acesso à informação. Assim, elas eram mais controladas pelos professores, e utilizadas para tarefas mais básicas, como para fazer uma apresentação de slides, transmitir um vídeo explicativo em sala de aula ou até usando sites e blogs de educação para auxiliar os alunos no aprendizado das disciplinas. Tudo ainda muito inicial e não automatizado (VILELA, 2025).
Com a chegada das IAs generativas, a delegação de tarefas aumentou. Se antes as ferramentas eram simples e usadas mais como apoio, hoje elas são capazes de desenvolver raciocínios completos sobre determinado assunto, o que pode precarizar o ensino, uma vez que o aluno já não se desenvolve mais por conta própria. O mesmo acaba acontecendo com os professores que, muitas vezes sobrecarregados, passam a automatizar suas tarefas ao máximo, delegando slides completos às IAs, a elaboração de provas e até a correção delas inteiramente às ferramentas generativas. “Então, nós estamos em uma situação complicada, de políticas fragmentadas, de professores que não foram preparados, de estudantes também que não foram preparados, para não dizer letrados, o que a gente tem aprendido? O letramento espontâneo, nós mesmos estamos procurando aprender, eu como professora, eu procuro pesquisar.”, relata Queiroz.

Algumas pesquisas do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), departamento do NIC.br responsável por produzir estatísticas oficiais sobre a disponibilidade e o uso da internet e de tecnologias digitais no Brasil, revelam que a IA já está inserida no cotidiano estudantil e trazem pistas sobre os possíveis caminhos de sua integração à educação. Segundo pesquisa realizada em 2024 pela 15° edição da TIC Educação, sete em cada dez estudantes brasileiros do Ensino Médio, usuários da internet, recorrem a ferramentas de Inteligência Artificial generativa como ChatGPT, Copilot e Gemini para realizar pesquisas escolares. Entre os principais motivos estão a busca por informações sobre uma matéria ou exercício que não entendeu bem (86%), pesquisa para fazer trabalhos escolares (84%) e o uso da internet ou aplicações para praticar algo que está aprendendo (78%). No entanto, apenas 32% dizem ter recebido orientação nas escolas sobre como utilizar essas tecnologias.
Em um outro estudo setorial realizado pelo Cetic.br chamado “Inteligência Artificial na educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro”, os discentes relatam como é o uso de tecnologia em sala de aula. Alguns estudantes problematizam o uso de tecnologia na sala de aula, afirmando que, como recurso complementar à explicação do professor, é um uso positivo. Porém, se for para substituir essa explicação, o uso da tecnologia torna-se inadequado (Pág. 157 do estudo).
Com isso, é possível perceber que o uso das ferramentas generativas já está acontecendo de maneira natural no ambiente escolar. Os alunos buscam a plataforma como meio de auxílio nos estudos e os professores, como uma maneira de facilitar o trabalho.
Foi realizada um sondagem que buscou entender quando e de que forma os alunos, em sua maioria do cursinho, estão utilizando a Inteligência Artificial em seu dia a dia. O resultado da sondagem gerou os gráficos abaixo, confira:
Sala de aula (Foto: Júlia Vargas)
Regulamentação, ética e os limites da inteligência artificial na educação
À medida que a Inteligência Artificial se torna parte da rotina escolar, seu uso deixa de ser uma escolha restrita a professores e estudantes e passa a mobilizar educadores, pesquisadores, gestores públicos e instituições de ensino. Questões relacionadas à ética, autoria, privacidade e aprendizagem passaram a ocupar espaço crescente nas discussões sobre o futuro da educação. Com base na realidade brasileira, o Ministério da Educação (MEC) juntamente com a Secretaria de Educação Básica, elaboraram em 2026 um documento, “Inteligência Artificial na Educação Básica: Documento orientador sobre caminhos curriculares e práticas éticas de uso de IA nas escolas”. Nele estão contidos meios de como as tecnologias devem ser incorporadas de maneira responsável, considerando aspectos como privacidade, segurança e bem-estar dos estudantes.
No contexto brasileiro, a regulamentação quanto ao uso da IA ainda está em construção, mas já existem legislações vigentes que oferecem proteção aos usuários. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Estatuto da Criança e do Adolescente já estabelecem princípios relacionados à privacidade, transparência e aos direitos das crianças e adolescentes no ambiente digital. O documento orientador do MEC ressalta a importância de trabalhar a IA em conjunto com o humano, defendendo que as ferramentas sejam desenvolvidas e utilizadas considerando, desde sua concepção, a proteção dos direitos e do bem-estar dos estudantes.
Outro aspecto fundamental é referente aos limites pedagógicos da inteligência artificial. Embora sistemas generativos e plataformas automatizadas possam auxiliar na produção de conteúdos e na personalização da aprendizagem, eles não substituem a mediação humana no processo educacional. O professor continua sendo responsável por estimular o pensamento crítico, orientar discussões e promover experiências de aprendizagem que envolvem dimensões sociais, emocionais e éticas que vão além da atuação das máquinas (MEC).
O documento do MEC também chama atenção para os riscos associados ao uso indiscriminado dessas ferramentas. A coleta e o processamento de dados pessoais, por exemplo, exigem cuidados para garantir a privacidade dos estudantes e evitar práticas discriminatórias decorrentes de vieses algorítmicos. Além disso, a facilidade do acesso a sistemas de IA generativa levanta questionamentos sobre autoria, plágio e desenvolvimento da autonomia intelectual, tornando necessário estabelecer orientações claras sobre o uso em atividades escolares.
Diante desse cenário, destaca-se a importância da incorporação do letramento em inteligência artificial à educação digital, de modo a capacitar estudantes e professores para compreenderem o funcionamento dessas tecnologias, os dados que utilizam e suas implicações éticas e sociais. Para além do domínio técnico das ferramentas, torna-se essencial promover o desenvolvimento de competências críticas que possibilitem a avaliação e o uso responsável da IA. Nesse contexto, a consolidação das transformações promovidas pela inteligência artificial na educação está condicionada à formulação de políticas públicas, regulamentações adequadas e práticas pedagógicas voltadas à inclusão, à transparência e à valorização das relações humanas no processo de ensino e aprendizagem.
Professores e IA: parceria ou substituição?
Joyce Queiroz comentou sobre a sua realidade como professora, especialmente no contexto de Minas Gerais, e chamou a atenção para um ponto central: é inevitável o uso da IA generativa atualmente em ambiente escolar, mas a maneira como isso vai ser implementado considerando ética e responsabilidade, ainda é uma questão. “E hoje em dia, nós já estamos ficando dependentes disso. E é uma realidade”, diz Queiroz.
Queiroz continua, “os professores, mal remunerados, precisam trabalhar em dois cargos, chegar em casa e ainda identificar o que é, o que que não é IA, e aprender as ferramentas, é pesado”. Essa é uma das problemáticas envolvendo o uso de IA nas escolas. Os professores agora tem um retrabalho de não apenas corrigir os materiais dos alunos, mas também estar atento quanto ao uso de IA nos trabalhos e provas. Isso levanta tanto questões quanto ao plágio e produções não autorais, quanto em relação à grande perda de produção de conhecimento por parte dos alunos. Nesse cenário, a UNESCO (2025) destaca que a inteligência artificial generativa não deve substituir os processos de ensino e avaliação conduzidos pelos docentes, mas funcionar como um recurso complementar, sempre sob supervisão humana e alinhado aos objetivos pedagógicos.

“E hoje em dia, nós já estamos ficando dependentes disso. E é uma realidade.”
- Joyce Duarte, professora e doutoranda
Apesar das dificuldades, é notório também as facilidades que a ferramenta traz para o dia a dia desses professores, no quesito de otimizar as tarefas, que são muitas. Mas em relação à transmissão de conhecimento e conteúdo didático, muitas vezes, a IA precariza o ensino e escancara uma realidade de desigualdade. Segundo Queiroz, “algumas escolas podem utilizar [a Inteligência Artificial] porque talvez prepararam os professores, outras escolas já não vão utilizar porque a realidade é muito diferente, não tem internet, não tem infraestrutura, os estudantes não têm celular, não têm computador. Então, acho que é bem complicado falar do lado do professor”.
Outro ponto crucial é justamente a preparação do professor para lidar com a ferramenta em sala de aula. O letramento digital, entendido como a capacidade de compreender e utilizar tecnologias de forma crítica e criativa, é essencial para que os docentes possam navegar nas complexas dinâmicas de um mundo cada vez mais digitalizado e automatizado. Neste contexto, a formação docente deve ir além do domínio técnico das ferramentas digitais, sendo fundamental a reflexão sobre como essas tecnologias podem contribuir para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras e inclusivas. Ao mesmo tempo, é necessário considerar os impactos da IA sobre as relações educacionais, a personalização do ensino e os dilemas éticos e sociais envolvidos. As orientações da UNESCO (2025) reforçam essa perspectiva, ao recomendar que os sistemas educacionais invistam em programas permanentes de capacitação para professores, preparando-os não apenas para utilizar as ferramentas de IA, mas também para compreender seus limites, avaliar criticamente seus resultados e orientar os estudantes quanto ao uso ético da tecnologia. Por isso, é de extrema importância que haja políticas públicas vigentes para implementar as diretrizes e o letramento desses professores.
Assim, apesar dos avanços da inteligência artificial e da sua capacidade em automatizar tarefas, o professor permanece indispensável no processo de ensino e aprendizagem. O docente é ainda o responsável por mediar o conhecimento, estimular o pensamento crítico, interpretar as necessidades individuais dos estudantes e promover interações interpessoais que nenhuma tecnologia é capaz de reproduzir por completo. Nesse contexto, a IA surge como ferramenta de apoio, para ampliar as possibilidades pedagógicas, mas não substitui a experiência e o julgamento humano, característicos do ensino humano. O desafio então é compreender como ambos podem atuar de forma complementar para fortalecer a qualidade da educação.
Os impactos da inteligência artificial no aprendizado dos estudantes
Se a adoção do celular nas escolas levou quase uma década de debates acalorados, a chegada da Inteligência Artificial às salas de aula não pediu licença. Em uma velocidade desenfreada, algoritmos generativos se tornaram tão essenciais na rotina dos estudantes quanto os próprios cadernos. Chegamos, então, ao questionamento inevitável: estaríamos terceirizando o pensamento e criando uma geração afetada pelo sedentarismo cognitivo?
A resposta fácil costuma apontar para o pessimismo. Afinal, a tentação de entregar a lição de casa para a máquina, com um simples comando, é real. Porém, quando deixamos os temores de lado e olhamos para as evidências empíricas, o cenário que se desenha no campo educacional é muito mais complexo e, claro, fascinante. Um estudo recente com 500 estudantes do ensino fundamental e médio (do 7º ao 12º ano), publicado em 2025 pela revista científica PLOS One, decidiu testar esse impacto na prática. Os pesquisadores queriam entender se a IA atrofia a mente adolescente ou se, pelo contrário, impulsiona novas habilidades essenciais para este século. Em vez de emburrecer os alunos, os dados mostram que a ferramenta atua como um “andaime cognitivo”. O estudo comprovou que o uso da IA afeta positivamente a capacidade de inovação dos estudantes, estimulando o pensamento crítico e a resolução criativa de problemas. A máquina, muitas vezes, apresenta caminhos não convencionais que expandem a forma de o jovem pensar.
Contudo, para que o entusiasmo não atropele o rigor, é preciso olhar também para os limites apontados pelos próprios autores da pesquisa. Como o estudo avaliou os estudantes em um único recorte de tempo (o chamado modelo transversal) e se baseou nas respostas dadas pelos próprios alunos, ainda é cedo para a ciência cravar que essas melhorias cognitivas se sustentam a longo prazo de forma isolada.
E aqui entra uma ressalva que dialoga diretamente com a desigualdade das salas de aula reais: a pesquisa reconhece que a infraestrutura tecnológica da escola e o preparo digital do professor são fatores que interferem drasticamente no sucesso desse “andaime cognitivo”. Os dados revelaram, inclusive, que o simples fato de o aluno acessar e usar a IA com muita frequência não é suficiente para desenvolver a mente ou a capacidade de inovação. Ou seja, a tecnologia não opera milagres sozinha; sem um uso aprofundado e a mediação de um educador devidamente preparado, o algoritmo não passa de uma tela brilhante.

Colagem representando a tecnologia e o uso da IA nos estudos por jovens (Fonte: autoral)
Diante desse contato constante, os alunos não fazem apenas o uso passivo da ferramenta, mas desenvolveram um letramento digital sofisticado. Eles aprendem a avaliar criticamente o que estão lendo. E essa postura analítica não é mero achismo: a ciência comprova que o senso crítico é estimulado, muitas vezes, pela própria desconfiança com a máquina. O estudo “The Impact of Artificial Intelligence (AI) on Students’ Academic Development”, conduzido pelos pesquisadores Aniella Mihaela Vieriu e Gabriel Petea e publicado na revista Education Sciences (2025), revelou que a maior preocupação de quase metade dos estudantes (48,2%) ao usar a tecnologia é justamente o risco de receber respostas incorretas ou imprecisas. Diante das famosas “alucinações” dos algoritmos, os próprios alunos relatam a necessidade de cruzar dados em outras fontes para verificar se o texto gerado é realmente confiável. O estudo da PLOS One complementa esse cenário ao atestar que a IA atua como um andaime cognitivo que força o estudante a fazer um ”questionamento estruturado das fontes de informação”, aprimorando seu julgamento avaliativo. A pesquisa revela, inclusive, uma via de mão dupla: quanto mais inovam usando a IA e exercitam esse filtro rigoroso, mais letrados digitalmente se tornam, criando um ciclo de desenvolvimento virtuoso.
Porém, todo esse fascínio que encanta os jovens esconde um cenário de incertezas acadêmicas. Se de um lado a IA promete um “andaime cognitivo”, a ciência que sustenta essa revolução ainda caminha sobre alicerces muito frágeis. Uma rigorosa revisão sistemática sobre o uso da IA no ensino de disciplinas exatas (STEM) no ensino médio, publicada no Eurasia Journal of Mathematics, Science and Technology Education em 2025, jogou uma dose necessária de realidade nessa euforia.
Ao analisar a prática real, os pesquisadores constataram que as escolas correm o risco de adotar a ferramenta sem compreender seus efeitos a longo prazo. A grande maioria dos estudos atuais testa a IA em amostras minúsculas, muitas vezes variando de apenas 1 a 50 alunos. Pior ainda, falta rigor científico pois grande parte das pesquisas ignora o uso de grupos de controle para comparar quem usou ou não a tecnologia.
Na prática, isso significa que a ciência ainda tem dificuldades para comprovar se o salto de aprendizado relatado nas escolas é duradouro ou apenas um encantamento passageiro com o frescor da novidade. E, claro, a conta dessa experimentação tecnológica não chega igual para todos. O entusiasmo de que a IA democratiza e facilita o ensino esbarra na velha barreira da desigualdade estrutural. A mesma revisão apontou que intervenções automatizadas podem ter eficácia variável, beneficiando menos determinados grupos demográficos ou minorias. Isso escancara que a promessa de um ensino perfeitamente personalizado via algoritmos ainda não é universal. Diante desse cenário, a educação se vê dividida entre dois mundos em tempo real. O potencial brilhante de letramento digital apontado pelo estudo da PLOS One colide frontalmente com as incertezas metodológicas evidenciadas pela revisão do estudo, realizada pela STEM. A solução para evitar que a inovação vire apenas mais um motor de exclusão não está em cabos de fibra óptica, mas no fator humano. A própria ciência conclui que a IA exige mediação constante e não funciona no piloto automático. A pesquisa da PLOS One (2025) alerta que a integração eficaz dessa tecnologia exige capacitar os professores para alinharem os algoritmos aos objetivos pedagógicos. O estudo da Education Sciences (2025) reforça a urgência de treinamentos nas escolas para evitar a dependência excessiva da tecnologia. Longe de ser substituído, o professor ganha um novo protagonismo: o de mediador essencial em um ensino centrado no humano, onde a máquina apenas complementa, e jamais anula, a interação tradicional.
É urgente treinar os educadores para que saibam dominar a ferramenta, adaptando o conteúdo gerado pelas máquinas às realidades demográficas de cada sala de aula. É o professor quem vai liderar o uso ético da tecnologia e proteger os alunos do sedentarismo cognitivo. A Inteligência Artificial pode até ser o novo motor da educação, mas, sem um professor preparado, a inovação perde o rumo.

Uma visão geral dos logotipos das principais plataformas e ferramentas de Inteligência Artificial generativa (Fonte: autoral)
A OpenAI lançou o ChatGPT em 30 de novembro de 2022, como uma demonstração pública gratuita do GPT-3.5. Foi então que o sistema alcançou a marca histórica de 100 milhões de usuários ativos mensais em janeiro de 2023, apenas dois meses após seu lançamento. Em comparação, por exemplo, às principais redes sociais da atualidade, o Instagram levou cerca de dois anos e o TikTok cerca de 9 meses para alcançar o mesmo número. (EXAME, 2023)
Alguns anos após, a evolução da IA tomou proporções maiores, os modelos deixaram de apenas criar conteúdos básicos e passaram a realizar raciocínios complexos, fazer planejamentos e executar tarefas inteiramente sozinhos. Em 2025, pela primeira vez, um modelo experimental da OpenAI e do Gemini Deep Think foram capazes de conquistar pontuação necessária para a medalha de ouro da Olimpíada Internacional de Matemática, um feito antes inimaginável. Ainda assim, o desempenho humano foi superior ao das IAs generativas na competição (G1, 2025).
Chegamos então ao questionamento: considerando o avanço extremo das IAs generativas, chegando até ao desempenho avançado em questões educacionais, como a Inteligência Artificial pode ser integrada ao ambiente escolar de forma a potencializar o aprendizado sem comprometer a autonomia, a criatividade e o pensamento crítico dos estudantes? É o que procuramos responder ao longo desta reportagem.
A seguir, foi realizada uma linha do tempo para exemplificar o avanço da IA ao longo dos anos e os principais eventos que marcaram essa evolução.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL JÁ CHEGOU ÀS SALAS DE AULA
Diversos modelos de IA, como ChatGPT, Gemini e Claude passaram a ser utilizados amplamente em diversas áreas da sociedade, tanto para a realização de tarefas pequenas e cotidianas, quanto em escritórios comerciais, e claro, nas escolas. Alunos e professores descobrem aos poucos as potencialidades da ferramenta no ambiente escolar, e ampliam cada vez mais o seu uso.
É notório que a IA oferece diversos benefícios para o ambiente educacional. Ela é capaz de ser, ao mesmo tempo, personalizada e facilitadora. O aluno consegue fazer a ferramenta se adaptar ao seu estilo de estudo e de aprendizagem, tornando esse processo muito mais tranquilo do que antes. Além disso, sistemas como o NotebookLM - desenvolvido pelo Google Labs e ligado ao Gemini - são capazes de absorver grandes quantidades de conteúdo, as chamadas fontes, e a partir delas, criar diversos facilitadores para o estudo e a compreensão desse conteúdo que foi fornecido. Para os professores, também há uma maior facilidade em relação à algumas tarefas. Joyce Queiroz, Doutoranda em Educação pela UFU, Mestre em Educação pela UFMG, com licenciaturas em Geografia e Pedagogia, relatou algumas dessas facilidades. “A inteligência artificial, no caso, a inteligência artificial que é essa que cria, que gera os textos, eu consigo explorar vários benefícios. E é justamente essa questão de otimizar o tempo, de, como professora, realizar avaliações, realizar resumos, buscar artigos individuais, trabalhos individuais.”
Porém, a facilidade encontrada nesses ambientes virtuais esbarra nos desafios enfrentados presencialmente nas escolas. As inovações tecnológicas chegaram no setor educacional servindo, principalmente, como ferramentas para facilitar o acesso à informação. Assim, elas eram mais controladas pelos professores, e utilizadas para tarefas mais básicas, como para fazer uma apresentação de slides, transmitir um vídeo explicativo em sala de aula ou até usando sites e blogs de educação para auxiliar os alunos no aprendizado das disciplinas. Tudo ainda muito inicial e não automatizado (VILELA, 2025).
Com a chegada das IAs generativas, a delegação de tarefas aumentou. Se antes as ferramentas eram simples e usadas mais como apoio, hoje elas são capazes de desenvolver raciocínios completos sobre determinado assunto, o que pode precarizar o ensino, uma vez que o aluno já não se desenvolve mais por conta própria. O mesmo acaba acontecendo com os professores que, muitas vezes sobrecarregados, passam a automatizar suas tarefas ao máximo, delegando slides completos às IAs, a elaboração de provas e até a correção delas inteiramente às ferramentas generativas. “Então, nós estamos em uma situação complicada, de políticas fragmentadas, de professores que não foram preparados, de estudantes também que não foram preparados, para não dizer letrados, o que a gente tem aprendido? O letramento espontâneo, nós mesmos estamos procurando aprender, eu como professora, eu procuro pesquisar.”, relata Queiroz.

Sala de aula (Foto: Júlia Vargas)
Algumas pesquisas do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), departamento do NIC.br responsável por produzir estatísticas oficiais sobre a disponibilidade e o uso da internet e de tecnologias digitais no Brasil, revelam que a IA já está inserida no cotidiano estudantil e trazem pistas sobre os possíveis caminhos de sua integração à educação. Segundo pesquisa realizada em 2024 pela 15° edição da TIC Educação, sete em cada dez estudantes brasileiros do Ensino Médio, usuários da internet, recorrem a ferramentas de Inteligência Artificial generativa como ChatGPT, Copilot e Gemini para realizar pesquisas escolares. Entre os principais motivos estão a busca por informações sobre uma matéria ou exercício que não entendeu bem (86%), pesquisa para fazer trabalhos escolares (84%) e o uso da internet ou aplicações para praticar algo que está aprendendo (78%). No entanto, apenas 32% dizem ter recebido orientação nas escolas sobre como utilizar essas tecnologias.
Em um outro estudo setorial realizado pelo Cetic.br chamado “Inteligência Artificial na educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro”, os discentes relatam como é o uso de tecnologia em sala de aula. Alguns estudantes problematizam o uso de tecnologia na sala de aula, afirmando que, como recurso complementar à explicação do professor, é um uso positivo. Porém, se for para substituir essa explicação, o uso da tecnologia torna-se inadequado (Pág. 157 do estudo).
Com isso, é possível perceber que o uso das ferramentas generativas já está acontecendo de maneira natural no ambiente escolar. Os alunos buscam a plataforma como meio de auxílio nos estudos e os professores, como uma maneira de facilitar o trabalho.
Foi realizada um sondagem que buscou entender quando e de que forma os alunos, em sua maioria do cursinho, estão utilizando a Inteligência Artificial em seu dia a dia. O resultado da sondagem gerou os gráficos abaixo, confira:
Regulamentação, ética e os limites da inteligência artificial na educação
À medida que a Inteligência Artificial se torna parte da rotina escolar, seu uso deixa de ser uma escolha restrita a professores e estudantes e passa a mobilizar educadores, pesquisadores, gestores públicos e instituições de ensino. Questões relacionadas à ética, autoria, privacidade e aprendizagem passaram a ocupar espaço crescente nas discussões sobre o futuro da educação. Com base na realidade brasileira, o Ministério da Educação (MEC) juntamente com a Secretaria de Educação Básica, elaboraram em 2026 um documento, “Inteligência Artificial na Educação Básica: Documento orientador sobre caminhos curriculares e práticas éticas de uso de IA nas escolas”. Nele estão contidos meios de como as tecnologias devem ser incorporadas de maneira responsável, considerando aspectos como privacidade, segurança e bem-estar dos estudantes.
No contexto brasileiro, a regulamentação quanto ao uso da IA ainda está em construção, mas já existem legislações vigentes que oferecem proteção aos usuários. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Estatuto da Criança e do Adolescente já estabelecem princípios relacionados à privacidade, transparência e aos direitos das crianças e adolescentes no ambiente digital. O documento orientador do MEC ressalta a importância de trabalhar a IA em conjunto com o humano, defendendo que as ferramentas sejam desenvolvidas e utilizadas considerando, desde sua concepção, a proteção dos direitos e do bem-estar dos estudantes.
Outro aspecto fundamental é referente aos limites pedagógicos da inteligência artificial. Embora sistemas generativos e plataformas automatizadas possam auxiliar na produção de conteúdos e na personalização da aprendizagem, eles não substituem a mediação humana no processo educacional. O professor continua sendo responsável por estimular o pensamento crítico, orientar discussões e promover experiências de aprendizagem que envolvem dimensões sociais, emocionais e éticas que vão além da atuação das máquinas (MEC).
O documento do MEC também chama atenção para os riscos associados ao uso indiscriminado dessas ferramentas. A coleta e o processamento de dados pessoais, por exemplo, exigem cuidados para garantir a privacidade dos estudantes e evitar práticas discriminatórias decorrentes de vieses algorítmicos. Além disso, a facilidade do acesso a sistemas de IA generativa levanta questionamentos sobre autoria, plágio e desenvolvimento da autonomia intelectual, tornando necessário estabelecer orientações claras sobre o uso em atividades escolares.
Diante desse cenário, destaca-se a importância da incorporação do letramento em inteligência artificial à educação digital, de modo a capacitar estudantes e professores para compreenderem o funcionamento dessas tecnologias, os dados que utilizam e suas implicações éticas e sociais. Para além do domínio técnico das ferramentas, torna-se essencial promover o desenvolvimento de competências críticas que possibilitem a avaliação e o uso responsável da IA. Nesse contexto, a consolidação das transformações promovidas pela inteligência artificial na educação está condicionada à formulação de políticas públicas, regulamentações adequadas e práticas pedagógicas voltadas à inclusão, à transparência e à valorização das relações humanas no processo de ensino e aprendizagem.
Projetos e escolas que já utilizam inteligência artificial
Professores e IA: parceria ou substituição?
O estado do Piauí foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como o primeiro território do continente americano a implementar o ensino de Inteligência Artificial na educação básica, através de uma disciplina obrigatória aos alunos do 9° ano do ensino fundamental e de todo o Ensino Médio, desde o início de 2024, segundo reportagem do G1.
O exemplo do Piauí pode ser uma das possíveis soluções para o avanço do uso desenfreado da IA na educação, com o ensino em sala de aula e a capacitação dos professores, é possível fazer uma integração entre humano e máquina de maneira mais facilitada e ética, já que a discussão sobre plágio e direitos autorais em produções escolares também é um ponto que precisa ser discutido e abordado, tanto pela sociedade, quanto pelas autoridades competentes.
O estudo da Dra. Neelam C Dey, "Enhancing Educational Tools Through Artificial Intelligence in Perspective of Need of AI" (Aprimoramento das ferramentas educacionais por meio da inteligência artificial, sob a perspectiva das necessidades da IA) de 2024, aborda o relato do caso de uma escola na Califórnia que implementou um sistema de tutoria guiado por IA para guiar os alunos com dificuldades com matemática. O sistema fortaleceu as aulas personalizadas e enviou os dados em tempo real para os professores fazerem intervenções pontuais. O resultado foi um aumento de 25% nas notas de testes padronizados em apenas um ano letivo.
Esses resultados internacionais expressivos, alcançados através da personalização e do suporte tecnológico guiado pela IA, dialogam diretamente com a importância de iniciativas pioneiras, como a do estado do Piauí. O modelo piauiense comprova que a solução para o avanço desenfreado dessas ferramentas não é o distanciamento, mas sim o ensino formal em sala de aula aliado à capacitação dos professores. Com uma integração estruturada, é possível usufruir das mesmas vantagens vistas no uso de aplicativos e realidades virtuais, construindo uma relação entre humano e máquina de maneira mais facilitada e ética. Dessa forma, os educadores ganham protagonismo para conduzir, junto à sociedade e às autoridades competentes, as discussões inevitáveis sobre direitos autorais, limites do plágio e responsabilidade digital na produção do conhecimento.
A escola no futuro vai sobreviver sem a IA?
Joyce Queiroz comentou sobre a sua realidade como professora, especialmente no contexto de Minas Gerais, e chamou a atenção para um ponto central: é inevitável o uso da IA generativa atualmente em ambiente escolar, mas a maneira como isso vai ser implementado considerando ética e responsabilidade, ainda é uma questão. “E hoje em dia, nós já estamos ficando dependentes disso. E é uma realidade”, diz Queiroz.
Queiroz continua, “os professores, mal remunerados, precisam trabalhar em dois cargos, chegar em casa e ainda identificar o que é, o que que não é IA, e aprender as ferramentas, é pesado”. Essa é uma das problemáticas envolvendo o uso de IA nas escolas. Os professores agora tem um retrabalho de não apenas corrigir os materiais dos alunos, mas também estar atento quanto ao uso de IA nos trabalhos e provas. Isso levanta tanto questões quanto ao plágio e produções não autorais, quanto em relação à grande perda de produção de conhecimento por parte dos alunos. Nesse cenário, a UNESCO (2025) destaca que a inteligência artificial generativa não deve substituir os processos de ensino e avaliação conduzidos pelos docentes, mas funcionar como um recurso complementar, sempre sob supervisão humana e alinhado aos objetivos pedagógicos.
A chegada da Inteligência Artificial generativa às escolas ocorreu de forma veloz e inevitável, transformando a rotina de alunos e professores em menos de uma década. Como demonstrado ao longo desta reportagem, a tecnologia deixou de ser um recurso complementar básico para se tornar uma ferramenta capaz de desenvolver raciocínios complexos.Hoje, sete em cada dez estudantes do Ensino Médio já recorrem a sistemas como ChatGPT e Gemini para pesquisas escolares. Esse dado, revelado pela pesquisa TIC Educação 2024 do Cetic.br, evidencia que a IA já é uma realidade intrínseca nas salas de aula, oferecendo facilidades e personalização para os estudos.
No entanto, essa integração revelou-se uma faca de dois gumes para o aprendizado. Por um lado, estudos empíricos comprovam que a IA pode atuar como um “andaime cognitivo”, impulsionando a inovação, a resolução criativa de problemas e o letramento digital dos jovens. Por outro, a ciência alerta para os riscos do “sedentarismo cognitivo”, incertezas metodológicas sobre sua eficácia a longo prazo e o perigo de aprofundar desigualdades estruturais, uma vez que as intervenções algorítmicas ainda não beneficiam todos os grupos demográficos de forma igualitária.
Para lidar com esses desafios, criar regras e colocar o tema oficialmente nas aulas da escola é fundamental. As novas orientações do Ministério da Educação (MEC), junto com leis que já existem como a LGPD, tentam proteger as informações e o bem-estar dos alunos contra os erros ou preconceitos das máquinas. Seguindo esse mesmo cuidado, a Lei dos Direitos Autorais virou um assunto obrigatório para as escolas, para a sociedade e para as autoridades. Afinal, é essa lei que dá a garantia na justiça para separar o que é uma criação verdadeira do aluno e o que é apenas uma cópia (o famoso plágio) feita pela inteligência artificial. Exemplos práticos, como a atitude do estado do Piauí de transformar a IA em uma matéria obrigatória para os jovens, mostram que ensinar o assunto de forma organizada e conversar abertamente na sala de aula são os melhores caminhos para usar a tecnologia com segurança e ética.
Nesse cenário de transformações profundas, o papel do professor reafirma-se como insubstituível. A ideia de que as máquinas automatizaram o ensino e substituiriam os docentes esbarra na necessidade vital de mediação. Os educadores precisam de políticas públicas urgentes que garantam capacitação e letramento digital contínuos, pois são eles que lideram o uso ético da tecnologia, adaptam o conteúdo gerado pelas plataformas à realidade dos alunos e protegem as turmas da terceirização do pensamento.
Os desafios apresentados ao longo desta reportagem demonstram que o futuro da Inteligência Artificial na educação não será definido apenas pelos avanços tecnológicos, mas também pelas discussões construídas coletivamente entre pesquisadores, professores, gestores públicos e sociedade. É desse diálogo que surgem as decisões capazes de orientar uma utilização ética e responsável da tecnologia nas escolas. Projetos de inclusão, como o “Seja Tech” – projeto de inclusão digital para colaboradores, iniciativa do Colégio Stella Matutina, instituição dirigida pela Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo –, nos lembram que a verdadeira inovação não deixa ninguém para trás. Como bem pontuou o educador do projeto, a tecnologia na educação é um instrumento poderoso de autonomia e cidadania. O sucesso da educação na era da Inteligência Artificial dependerá justamente desse equilíbrio fundamental: utilizar a capacidade analítica e massiva das máquinas para otimizar o ensino, enquanto se preserva o julgamento crítico, a empatia e a autonomia intelectual que são estritamente humanos.
Confira a reportagem sobre o projeto "Seja Tech":
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“E hoje em dia, nós já estamos ficando dependentes disso. E é uma realidade.”
- Joyce Duarte, professora e doutoranda
Apesar das dificuldades, é notório também as facilidades que a ferramenta traz para o dia a dia desses professores, no quesito de otimizar as tarefas, que são muitas. Mas em relação à transmissão de conhecimento e conteúdo didático, muitas vezes, a IA precariza o ensino e escancara uma realidade de desigualdade. Segundo Queiroz, “algumas escolas podem utilizar [a Inteligência Artificial] porque talvez prepararam os professores, outras escolas já não vão utilizar porque a realidade é muito diferente, não tem internet, não tem infraestrutura, os estudantes não têm celular, não têm computador. Então, acho que é bem complicado falar do lado do professor”.
Outro ponto crucial é justamente a preparação do professor para lidar com a ferramenta em sala de aula. O letramento digital, entendido como a capacidade de compreender e utilizar tecnologias de forma crítica e criativa, é essencial para que os docentes possam navegar nas complexas dinâmicas de um mundo cada vez mais digitalizado e automatizado. Neste contexto, a formação docente deve ir além do domínio técnico das ferramentas digitais, sendo fundamental a reflexão sobre como essas tecnologias podem contribuir para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras e inclusivas. Ao mesmo tempo, é necessário considerar os impactos da IA sobre as relações educacionais, a personalização do ensino e os dilemas éticos e sociais envolvidos. As orientações da UNESCO (2025) reforçam essa perspectiva, ao recomendar que os sistemas educacionais invistam em programas permanentes de capacitação para professores, preparando-os não apenas para utilizar as ferramentas de IA, mas também para compreender seus limites, avaliar criticamente seus resultados e orientar os estudantes quanto ao uso ético da tecnologia. Por isso, é de extrema importância que haja políticas públicas vigentes para implementar as diretrizes e o letramento desses professores.
Assim, apesar dos avanços da inteligência artificial e da sua capacidade em automatizar tarefas, o professor permanece indispensável no processo de ensino e aprendizagem. O docente é ainda o responsável por mediar o conhecimento, estimular o pensamento crítico, interpretar as necessidades individuais dos estudantes e promover interações interpessoais que nenhuma tecnologia é capaz de reproduzir por completo. Nesse contexto, a IA surge como ferramenta de apoio, para ampliar as possibilidades pedagógicas, mas não substitui a experiência e o julgamento humano, característicos do ensino humano. O desafio então é compreender como ambos podem atuar de forma complementar para fortalecer a qualidade da educação.
Os impactos da inteligência artificial no aprendizado dos estudantes

Cauê Fernandes
Sobre nós
Júlia Vargas
Cauê Fernandes


Somos Júlia Vargas e Cauê Fernandes, estudantes de Jornalismo na UFU (Universidade Federal de Uberlândia), e criamos este projeto de Reportagem Longform com o intuito de unir as ferramentas da nossa futura profissão, como a escrita, a comunicação e a apuração crítica, com a nossa urgência em compreender as rápidas transformações tecnológicas da nossa era

Na história da humanidade, poucas revoluções tecnológicas avançaram tão rápido e em tão pouco tempo quanto a evolução da Inteligência Artificial generativa. Foi em menos de uma década que passaram de meros protótipos à sistemas completos capazes de escrever todo tipo de texto, compor músicas e gerar mídias extremamente realistas.
A IA não surgiu do nada, ela foi resultado de anos de pesquisa e aperfeiçoamento. Aos poucos, os estudos e pesquisas em IA generativa avançaram por parte das empresas de tecnologia, que foram criando modelos cada vez mais avançados, até o boom em 2022. Em cerca de um ano, a IA generativa deixou de ser um mistério para se tornar realidade intrínseca no mundo todo. Três eventos foram responsáveis por isso: o lançamento do Stable Diffusion, utilizado principalmente para gerar imagens detalhadas através de descrições textuais; o surgimento do Midjourney, também gerador de imagens; e, principalmente, o lançamento do ChatGPT.

Uma visão geral dos logotipos das principais plataformas e ferramentas de Inteligência Artificial generativa
Diversos modelos de IA, como ChatGPT, Gemini e Claude passaram a ser utilizados amplamente em diversas áreas da sociedade, tanto para a realização de tarefas pequenas e cotidianas, quanto em escritórios comerciais, e claro, nas escolas. Alunos e professores descobrem aos poucos as potencialidades da ferramenta no ambiente escolar, e ampliam cada vez mais o seu uso.
É notório que a IA oferece diversos benefícios para o ambiente educacional. Ela é capaz de ser, ao mesmo tempo, personalizada e facilitadora. O aluno consegue fazer a ferramenta se adaptar ao seu estilo de estudo e de aprendizagem, tornando esse processo muito mais tranquilo do que antes. Além disso, sistemas como o NotebookLM - desenvolvido pelo Google Labs e ligado ao Gemini - são capazes de absorver grandes quantidades de conteúdo, as chamadas fontes, e a partir delas, criar diversos facilitadores para o estudo e a compreensão desse conteúdo que foi fornecido. Para os professores, também há uma maior facilidade em relação à algumas tarefas. Joyce Queiroz, Doutoranda em Educação pela UFU, Mestre em Educação pela UFMG, com licenciaturas em Geografia e Pedagogia, relatou algumas dessas facilidades. “A inteligência artificial, no caso, a inteligência artificial que é essa que cria, que gera os textos, eu consigo explorar vários benefícios. E é justamente essa questão de otimizar o tempo, de, como professora, realizar avaliações, realizar resumos, buscar artigos individuais, trabalhos individuais.”
Porém, a facilidade encontrada nesses ambientes virtuais esbarra nos desafios enfrentados presencialmente nas escolas. As inovações tecnológicas chegaram no setor educacional servindo, principalmente, como ferramentas para facilitar o acesso à informação. Assim, elas eram mais controladas pelos professores, e utilizadas para tarefas mais básicas, como para fazer uma apresentação de slides, transmitir um vídeo explicativo em sala de aula ou até usando sites e blogs de educação para auxiliar os alunos no aprendizado das disciplinas. Tudo ainda muito inicial e não automatizado (VILELA, 2025).
Com a chegada das IAs generativas, a delegação de tarefas aumentou. Se antes as ferramentas eram simples e usadas mais como apoio, hoje elas são capazes de desenvolver raciocínios completos sobre determinado assunto, o que pode precarizar o ensino, uma vez que o aluno já não se desenvolve mais por conta própria. O mesmo acaba acontecendo com os professores que, muitas vezes sobrecarregados, passam a automatizar suas tarefas ao máximo, delegando slides completos às IAs, a elaboração de provas e até a correção delas inteiramente às ferramentas generativas. “Então, nós estamos em uma situação complicada, de políticas fragmentadas, de professores que não foram preparados, de estudantes também que não foram preparados, para não dizer letrados, o que a gente tem aprendido? O letramento espontâneo, nós mesmos estamos procurando aprender, eu como professora, eu procuro pesquisar.”, relata Queiroz.
A inteligência artificial já chegou às salas de aula

Algumas pesquisas do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), departamento do NIC.br responsável por produzir estatísticas oficiais sobre a disponibilidade e o uso da internet e de tecnologias digitais no Brasil, revelam que a IA já está inserida no cotidiano estudantil e trazem pistas sobre os possíveis caminhos de sua integração à educação. Segundo pesquisa realizada em 2024 pela 15° edição da TIC Educação, sete em cada dez estudantes brasileiros do Ensino Médio, usuários da internet, recorrem a ferramentas de Inteligência Artificial generativa como ChatGPT, Copilot e Gemini para realizar pesquisas escolares. Entre os principais motivos estão a busca por informações sobre uma matéria ou exercício que não entendeu bem (86%), pesquisa para fazer trabalhos escolares (84%) e o uso da internet ou aplicações para praticar algo que está aprendendo (78%). No entanto, apenas 32% dizem ter recebido orientação nas escolas sobre como utilizar essas tecnologias.
Em um outro estudo setorial realizado pelo Cetic.br chamado “Inteligência Artificial na educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro”, os discentes relatam como é o uso de tecnologia em sala de aula. Alguns estudantes problematizam o uso de tecnologia na sala de aula, afirmando que, como recurso complementar à explicação do professor, é um uso positivo. Porém, se for para substituir essa explicação, o uso da tecnologia torna-se inadequado (Pág. 157 do estudo).
Com isso, é possível perceber que o uso das ferramentas generativas já está acontecendo de maneira natural no ambiente escolar. Os alunos buscam a plataforma como meio de auxílio nos estudos e os professores, como uma maneira de facilitar o trabalho.
Foi realizada um sondagem que buscou entender quando e de que forma os alunos, em sua maioria do cursinho, estão utilizando a Inteligência Artificial em seu dia a dia. O resultado da sondagem gerou os gráficos abaixo, confira:
Sala de aula (Foto: Júlia Vargas)
À medida que a Inteligência Artificial se torna parte da rotina escolar, seu uso deixa de ser uma escolha restrita a professores e estudantes e passa a mobilizar educadores, pesquisadores, gestores públicos e instituições de ensino. Questões relacionadas à ética, autoria, privacidade e aprendizagem passaram a ocupar espaço crescente nas discussões sobre o futuro da educação. Com base na realidade brasileira, o Ministério da Educação (MEC) juntamente com a Secretaria de Educação Básica, elaboraram em 2026 um documento, “Inteligência Artificial na Educação Básica: Documento orientador sobre caminhos curriculares e práticas éticas de uso de IA nas escolas”. Nele estão contidos meios de como as tecnologias devem ser incorporadas de maneira responsável, considerando aspectos como privacidade, segurança e bem-estar dos estudantes.
No contexto brasileiro, a regulamentação quanto ao uso da IA ainda está em construção, mas já existem legislações vigentes que oferecem proteção aos usuários. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Estatuto da Criança e do Adolescente já estabelecem princípios relacionados à privacidade, transparência e aos direitos das crianças e adolescentes no ambiente digital. O documento orientador do MEC ressalta a importância de trabalhar a IA em conjunto com o humano, defendendo que as ferramentas sejam desenvolvidas e utilizadas considerando, desde sua concepção, a proteção dos direitos e do bem-estar dos estudantes.
Outro aspecto fundamental é referente aos limites pedagógicos da inteligência artificial. Embora sistemas generativos e plataformas automatizadas possam auxiliar na produção de conteúdos e na personalização da aprendizagem, eles não substituem a mediação humana no processo educacional. O professor continua sendo responsável por estimular o pensamento crítico, orientar discussões e promover experiências de aprendizagem que envolvem dimensões sociais, emocionais e éticas que vão além da atuação das máquinas (MEC).
O documento do MEC também chama atenção para os riscos associados ao uso indiscriminado dessas ferramentas. A coleta e o processamento de dados pessoais, por exemplo, exigem cuidados para garantir a privacidade dos estudantes e evitar práticas discriminatórias decorrentes de vieses algorítmicos. Além disso, a facilidade do acesso a sistemas de IA generativa levanta questionamentos sobre autoria, plágio e desenvolvimento da autonomia intelectual, tornando necessário estabelecer orientações claras sobre o uso em atividades escolares.
Diante desse cenário, destaca-se a importância da incorporação do letramento em inteligência artificial à educação digital, de modo a capacitar estudantes e professores para compreenderem o funcionamento dessas tecnologias, os dados que utilizam e suas implicações éticas e sociais. Para além do domínio técnico das ferramentas, torna-se essencial promover o desenvolvimento de competências críticas que possibilitem a avaliação e o uso responsável da IA. Nesse contexto, a consolidação das transformações promovidas pela inteligência artificial na educação está condicionada à formulação de políticas públicas, regulamentações adequadas e práticas pedagógicas voltadas à inclusão, à transparência e à valorização das relações humanas no processo de ensino e aprendizagem.
Regulamentação, ética e os limites da inteligência artificial na educação
Joyce Queiroz comentou sobre a sua realidade como professora, especialmente no contexto de Minas Gerais, e chamou a atenção para um ponto central: é inevitável o uso da IA generativa atualmente em ambiente escolar, mas a maneira como isso vai ser implementado considerando ética e responsabilidade, ainda é uma questão. “E hoje em dia, nós já estamos ficando dependentes disso. E é uma realidade”, diz Queiroz.
Queiroz continua, “os professores, mal remunerados, precisam trabalhar em dois cargos, chegar em casa e ainda identificar o que é, o que que não é IA, e aprender as ferramentas, é pesado”. Essa é uma das problemáticas envolvendo o uso de IA nas escolas. Os professores agora tem um retrabalho de não apenas corrigir os materiais dos alunos, mas também estar atento quanto ao uso de IA nos trabalhos e provas. Isso levanta tanto questões quanto ao plágio e produções não autorais, quanto em relação à grande perda de produção de conhecimento por parte dos alunos. Nesse cenário, a UNESCO (2025) destaca que a inteligência artificial generativa não deve substituir os processos de ensino e avaliação conduzidos pelos docentes, mas funcionar como um recurso complementar, sempre sob supervisão humana e alinhado aos objetivos pedagógicos.
Professores e IA: parceria ou substituição?

“E hoje em dia, nós já estamos ficando dependentes disso. E é uma realidade.”
- Joyce Duarte, professora e doutoranda
Apesar das dificuldades, é notório também as facilidades que a ferramenta traz para o dia a dia desses professores, no quesito de otimizar as tarefas, que são muitas. Mas em relação à transmissão de conhecimento e conteúdo didático, muitas vezes, a IA precariza o ensino e escancara uma realidade de desigualdade. Segundo Queiroz, “algumas escolas podem utilizar [a Inteligência Artificial] porque talvez prepararam os professores, outras escolas já não vão utilizar porque a realidade é muito diferente, não tem internet, não tem infraestrutura, os estudantes não têm celular, não têm computador. Então, acho que é bem complicado falar do lado do professor”.
Outro ponto crucial é justamente a preparação do professor para lidar com a ferramenta em sala de aula. O letramento digital, entendido como a capacidade de compreender e utilizar tecnologias de forma crítica e criativa, é essencial para que os docentes possam navegar nas complexas dinâmicas de um mundo cada vez mais digitalizado e automatizado. Neste contexto, a formação docente deve ir além do domínio técnico das ferramentas digitais, sendo fundamental a reflexão sobre como essas tecnologias podem contribuir para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras e inclusivas. Ao mesmo tempo, é necessário considerar os impactos da IA sobre as relações educacionais, a personalização do ensino e os dilemas éticos e sociais envolvidos. As orientações da UNESCO (2025) reforçam essa perspectiva, ao recomendar que os sistemas educacionais invistam em programas permanentes de capacitação para professores, preparando-os não apenas para utilizar as ferramentas de IA, mas também para compreender seus limites, avaliar criticamente seus resultados e orientar os estudantes quanto ao uso ético da tecnologia. Por isso, é de extrema importância que haja políticas públicas vigentes para implementar as diretrizes e o letramento desses professores.
Assim, apesar dos avanços da inteligência artificial e da sua capacidade em automatizar tarefas, o professor permanece indispensável no processo de ensino e aprendizagem. O docente é ainda o responsável por mediar o conhecimento, estimular o pensamento crítico, interpretar as necessidades individuais dos estudantes e promover interações interpessoais que nenhuma tecnologia é capaz de reproduzir por completo. Nesse contexto, a IA surge como ferramenta de apoio, para ampliar as possibilidades pedagógicas, mas não substitui a experiência e o julgamento humano, característicos do ensino humano. O desafio então é compreender como ambos podem atuar de forma complementar para fortalecer a qualidade da educação.
Se a adoção do celular nas escolas levou quase uma década de debates acalorados, a chegada da Inteligência Artificial às salas de aula não pediu licença. Em uma velocidade desenfreada, algoritmos generativos se tornaram tão essenciais na rotina dos estudantes quanto os próprios cadernos. Chegamos, então, ao questionamento inevitável: estaríamos terceirizando o pensamento e criando uma geração afetada pelo sedentarismo cognitivo?
A resposta fácil costuma apontar para o pessimismo. Afinal, a tentação de entregar a lição de casa para a máquina, com um simples comando, é real. Porém, quando deixamos os temores de lado e olhamos para as evidências empíricas, o cenário que se desenha no campo educacional é muito mais complexo e, claro, fascinante. Um estudo recente com 500 estudantes do ensino fundamental e médio (do 7º ao 12º ano), publicado em 2025 pela revista científica PLOS One, decidiu testar esse impacto na prática. Os pesquisadores queriam entender se a IA atrofia a mente adolescente ou se, pelo contrário, impulsiona novas habilidades essenciais para este século. Em vez de emburrecer os alunos, os dados mostram que a ferramenta atua como um “andaime cognitivo”. O estudo comprovou que o uso da IA afeta positivamente a capacidade de inovação dos estudantes, estimulando o pensamento crítico e a resolução criativa de problemas. A máquina, muitas vezes, apresenta caminhos não convencionais que expandem a forma de o jovem pensar.
Contudo, para que o entusiasmo não atropele o rigor, é preciso olhar também para os limites apontados pelos próprios autores da pesquisa. Como o estudo avaliou os estudantes em um único recorte de tempo (o chamado modelo transversal) e se baseou nas respostas dadas pelos próprios alunos, ainda é cedo para a ciência cravar que essas melhorias cognitivas se sustentam a longo prazo de forma isolada.
E aqui entra uma ressalva que dialoga diretamente com a desigualdade das salas de aula reais: a pesquisa reconhece que a infraestrutura tecnológica da escola e o preparo digital do professor são fatores que interferem drasticamente no sucesso desse “andaime cognitivo”. Os dados revelaram, inclusive, que o simples fato de o aluno acessar e usar a IA com muita frequência não é suficiente para desenvolver a mente ou a capacidade de inovação. Ou seja, a tecnologia não opera milagres sozinha; sem um uso aprofundado e a mediação de um educador devidamente preparado, o algoritmo não passa de uma tela brilhante.
Os impactos da inteligência artificial no aprendizado dos estudantes

Colagem representando a tecnologia e o uso da IA nos estudos por jovens (Fonte: autoral)
Diante desse contato constante, os alunos não fazem apenas o uso passivo da ferramenta, mas desenvolveram um letramento digital sofisticado. Eles aprendem a avaliar criticamente o que estão lendo. E essa postura analítica não é mero achismo: a ciência comprova que o senso crítico é estimulado, muitas vezes, pela própria desconfiança com a máquina. O estudo “The Impact of Artificial Intelligence (AI) on Students’ Academic Development”, conduzido pelos pesquisadores Aniella Mihaela Vieriu e Gabriel Petea e publicado na revista Education Sciences (2025), revelou que a maior preocupação de quase metade dos estudantes (48,2%) ao usar a tecnologia é justamente o risco de receber respostas incorretas ou imprecisas. Diante das famosas “alucinações” dos algoritmos, os próprios alunos relatam a necessidade de cruzar dados em outras fontes para verificar se o texto gerado é realmente confiável. O estudo da PLOS One complementa esse cenário ao atestar que a IA atua como um andaime cognitivo que força o estudante a fazer um ”questionamento estruturado das fontes de informação”, aprimorando seu julgamento avaliativo. A pesquisa revela, inclusive, uma via de mão dupla: quanto mais inovam usando a IA e exercitam esse filtro rigoroso, mais letrados digitalmente se tornam, criando um ciclo de desenvolvimento virtuoso.
Porém, todo esse fascínio que encanta os jovens esconde um cenário de incertezas acadêmicas. Se de um lado a IA promete um “andaime cognitivo”, a ciência que sustenta essa revolução ainda caminha sobre alicerces muito frágeis. Uma rigorosa revisão sistemática sobre o uso da IA no ensino de disciplinas exatas (STEM) no ensino médio, publicada no Eurasia Journal of Mathematics, Science and Technology Education em 2025, jogou uma dose necessária de realidade nessa euforia.
Ao analisar a prática real, os pesquisadores constataram que as escolas correm o risco de adotar a ferramenta sem compreender seus efeitos a longo prazo. A grande maioria dos estudos atuais testa a IA em amostras minúsculas, muitas vezes variando de apenas 1 a 50 alunos. Pior ainda, falta rigor científico pois grande parte das pesquisas ignora o uso de grupos de controle para comparar quem usou ou não a tecnologia.
Na prática, isso significa que a ciência ainda tem dificuldades para comprovar se o salto de aprendizado relatado nas escolas é duradouro ou apenas um encantamento passageiro com o frescor da novidade. E, claro, a conta dessa experimentação tecnológica não chega igual para todos. O entusiasmo de que a IA democratiza e facilita o ensino esbarra na velha barreira da desigualdade estrutural. A mesma revisão apontou que intervenções automatizadas podem ter eficácia variável, beneficiando menos determinados grupos demográficos ou minorias. Isso escancara que a promessa de um ensino perfeitamente personalizado via algoritmos ainda não é universal. Diante desse cenário, a educação se vê dividida entre dois mundos em tempo real. O potencial brilhante de letramento digital apontado pelo estudo da PLOS One colide frontalmente com as incertezas metodológicas evidenciadas pela revisão do estudo, realizada pela STEM. A solução para evitar que a inovação vire apenas mais um motor de exclusão não está em cabos de fibra óptica, mas no fator humano. A própria ciência conclui que a IA exige mediação constante e não funciona no piloto automático. A pesquisa da PLOS One (2025) alerta que a integração eficaz dessa tecnologia exige capacitar os professores para alinharem os algoritmos aos objetivos pedagógicos. O estudo da Education Sciences (2025) reforça a urgência de treinamentos nas escolas para evitar a dependência excessiva da tecnologia. Longe de ser substituído, o professor ganha um novo protagonismo: o de mediador essencial em um ensino centrado no humano, onde a máquina apenas complementa, e jamais anula, a interação tradicional.
É urgente treinar os educadores para que saibam dominar a ferramenta, adaptando o conteúdo gerado pelas máquinas às realidades demográficas de cada sala de aula. É o professor quem vai liderar o uso ético da tecnologia e proteger os alunos do sedentarismo cognitivo. A Inteligência Artificial pode até ser o novo motor da educação, mas, sem um professor preparado, a inovação perde o rumo.
O estado do Piauí foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como o primeiro território do continente americano a implementar o ensino de Inteligência Artificial na educação básica, através de uma disciplina obrigatória aos alunos do 9° ano do ensino fundamental e de todo o Ensino Médio, desde o início de 2024, segundo reportagem do G1.
O exemplo do Piauí pode ser uma das possíveis soluções para o avanço do uso desenfreado da IA na educação, com o ensino em sala de aula e a capacitação dos professores, é possível fazer uma integração entre humano e máquina de maneira mais facilitada e ética, já que a discussão sobre plágio e direitos autorais em produções escolares também é um ponto que precisa ser discutido e abordado, tanto pela sociedade, quanto pelas autoridades competentes.
O estudo da Dra. Neelam C Dey, "Enhancing Educational Tools Through Artificial Intelligence in Perspective of Need of AI" (Aprimoramento das ferramentas educacionais por meio da inteligência artificial, sob a perspectiva das necessidades da IA) de 2024, aborda o relato do caso de uma escola na Califórnia que implementou um sistema de tutoria guiado por IA para guiar os alunos com dificuldades com matemática. O sistema fortaleceu as aulas personalizadas e enviou os dados em tempo real para os professores fazerem intervenções pontuais. O resultado foi um aumento de 25% nas notas de testes padronizados em apenas um ano letivo.
Esses resultados internacionais expressivos, alcançados através da personalização e do suporte tecnológico guiado pela IA, dialogam diretamente com a importância de iniciativas pioneiras, como a do estado do Piauí. O modelo piauiense comprova que a solução para o avanço desenfreado dessas ferramentas não é o distanciamento, mas sim o ensino formal em sala de aula aliado à capacitação dos professores. Com uma integração estruturada, é possível usufruir das mesmas vantagens vistas no uso de aplicativos e realidades virtuais, construindo uma relação entre humano e máquina de maneira mais facilitada e ética. Dessa forma, os educadores ganham protagonismo para conduzir, junto à sociedade e às autoridades competentes, as discussões inevitáveis sobre direitos autorais, limites do plágio e responsabilidade digital na produção do conhecimento.
Projetos e escolas que já utilizam inteligência artificial
A chegada da Inteligência Artificial generativa às escolas ocorreu de forma veloz e inevitável, transformando a rotina de alunos e professores em menos de uma década. Como demonstrado ao longo desta reportagem, a tecnologia deixou de ser um recurso complementar básico para se tornar uma ferramenta capaz de desenvolver raciocínios complexos.Hoje, sete em cada dez estudantes do Ensino Médio já recorrem a sistemas como ChatGPT e Gemini para pesquisas escolares. Esse dado, revelado pela pesquisa TIC Educação 2024 do Cetic.br, evidencia que a IA já é uma realidade intrínseca nas salas de aula, oferecendo facilidades e personalização para os estudos.
No entanto, essa integração revelou-se uma faca de dois gumes para o aprendizado. Por um lado, estudos empíricos comprovam que a IA pode atuar como um “andaime cognitivo”, impulsionando a inovação, a resolução criativa de problemas e o letramento digital dos jovens. Por outro, a ciência alerta para os riscos do “sedentarismo cognitivo”, incertezas metodológicas sobre sua eficácia a longo prazo e o perigo de aprofundar desigualdades estruturais, uma vez que as intervenções algorítmicas ainda não beneficiam todos os grupos demográficos de forma igualitária.
Para lidar com esses desafios, criar regras e colocar o tema oficialmente nas aulas da escola é fundamental. As novas orientações do Ministério da Educação (MEC), junto com leis que já existem como a LGPD, tentam proteger as informações e o bem-estar dos alunos contra os erros ou preconceitos das máquinas. Seguindo esse mesmo cuidado, a Lei dos Direitos Autorais virou um assunto obrigatório para as escolas, para a sociedade e para as autoridades. Afinal, é essa lei que dá a garantia na justiça para separar o que é uma criação verdadeira do aluno e o que é apenas uma cópia (o famoso plágio) feita pela inteligência artificial. Exemplos práticos, como a atitude do estado do Piauí de transformar a IA em uma matéria obrigatória para os jovens, mostram que ensinar o assunto de forma organizada e conversar abertamente na sala de aula são os melhores caminhos para usar a tecnologia com segurança e ética.
Nesse cenário de transformações profundas, o papel do professor reafirma-se como insubstituível. A ideia de que as máquinas automatizaram o ensino e substituiriam os docentes esbarra na necessidade vital de mediação. Os educadores precisam de políticas públicas urgentes que garantam capacitação e letramento digital contínuos, pois são eles que lideram o uso ético da tecnologia, adaptam o conteúdo gerado pelas plataformas à realidade dos alunos e protegem as turmas da terceirização do pensamento.
Os desafios apresentados ao longo desta reportagem demonstram que o futuro da Inteligência Artificial na educação não será definido apenas pelos avanços tecnológicos, mas também pelas discussões construídas coletivamente entre pesquisadores, professores, gestores públicos e sociedade. É desse diálogo que surgem as decisões capazes de orientar uma utilização ética e responsável da tecnologia nas escolas. Projetos de inclusão, como o “Seja Tech” – projeto de inclusão digital para colaboradores, iniciativa do Colégio Stella Matutina, instituição dirigida pela Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo –, nos lembram que a verdadeira inovação não deixa ninguém para trás. Como bem pontuou o educador do projeto, a tecnologia na educação é um instrumento poderoso de autonomia e cidadania. O sucesso da educação na era da Inteligência Artificial dependerá justamente desse equilíbrio fundamental: utilizar a capacidade analítica e massiva das máquinas para otimizar o ensino, enquanto se preserva o julgamento crítico, a empatia e a autonomia intelectual que são estritamente humanos.
Confira a reportagem sobre o projeto "Seja Tech":